sexta-feira, junho 30, 2006

Revelação


Eu vou fazer um poema sem palavras
e rabiscar em centelhas o infinito,
pois não sei ser preciso
e minha voz emudece, falha;

pra falar de ti, muitas vezes prefiro
o silêncio no qual te fito
onde me resguardo, escondido,
atrás de imensas muralhas.

e na quietude dos nossos pensares,
trocamos pelos olhares
todos os nossos gritos;

e é como se caísse o pano do grande circo,
revelando todo o disfarce
através dos teus olhos bonitos.

terça-feira, junho 27, 2006

Tarde

Tarde demais...
quando bem me querias
ainda toda forte,
na tenra idade de flor,
sentindo o ranço da vida
despreparada pro amor,
neguei com veemência o teu pedido
e enclausurei-me, bandida,
nas cercas da minha casa.
Fiz também que enganei donzelas,
enganei rapazes,
e moços e dondocas descrentes
que vinham até mim carentes
pra amenizarem suas saudades.

Eis que agora, anos depois,
vejo-te em rua à travessia!
descompassados cabelos loiros
que agora, acinzentados,
reluzem à passagem do sol
pelos fios encaracolados.
Uma moça acompanhas,
não tão jovem, não tão bela,
pra enlaçares mãos na cintura dela.
agora é tarde...

sábado, junho 24, 2006

Morye

Envolto de mar, vestido de oceano, parei-me quieto; boca seca, pele ardendo salgado, ainda o dorso fora d'água, pus a boca no mar e beijei. Imaginei que em outro mar fazias o mesmo...
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o mar é o todo num só...


quinta-feira, junho 22, 2006

O amor

- por que choras?
- por descobrir que a vida é bonita.
- e isso lá seria motivo de choro?
- não é bem isso. É apenas um instante em que observo tudo. Não te comove o bater de asas de um pássaro e como, por simples ser, causar tal movimento? ou tal borboleta que se espreguiça em asas multicolores, pousada numa folha...elas são belas por terem se agregado a formar um algo que existe, por si só. Não te comove observar tudo isso silencioso, não entender absolutamente nada, mas mesmo assim sentir-se com vontade de abraçar a vida toda, num só abraço? Neste instante, esqueço de tudo e respiro e me dá vontade de chorar, por haver, por segundos ínfimos, compreendido algo.
- Então é um choro de impossibilidade.
- é essa beleza toda que destrói, ser simplesmente capaz de aceitar que as coisas que estão são belas sem questionamento. São nestes pequenos instantes, nestes entraves impassados que nos sentimos pequenamente felizes e ao mesmo tempo tristes, por saber que nossa descoberta é praticamente inviável...
- mas então choras por felicidade ou impossibilidade?
- choro pela conseqüência de um no outro. Porque a todo momento precisamos dar razão ao amor que vemos, que sentimos; sendo que ele só tem a simples razão de ser amor, sem questionamentos. As invenções, as teorias, tudo, tudo a que o homem se agarra desesperadamente é sua única chance de compreender aquilo que o move num frenesi louco de amar...
- como já dizia nietzsche: somos seres somos dependentes de amar.
- é que nós, meu caro, somos o tal amor que buscamos. E eu acredito nele.
- eu também...

terça-feira, junho 20, 2006

Amor pra Recomeçar

Eu te desejo não parar tão cedo
pois toda idade tem prazer e medo
e com os que erram feio e bastante
que você consiga ser tolerante

Quando você ficar triste
que seja por um dia e não o ano inteiro
e que você descubra que rir é bom
mas que rir de tudo é desespero

Desejo que você tenha a quem amar
e quando estiver bem cansado
ainda exista amor pra recomeçar,
pra recomeçar

Eu te desejo muitos amigos
mas que em um você possa confiar
e que tenha até inimigos
pra você não deixar de duvidar

Quando você ficar triste
que seja por um dia e não o ano inteiro
e que você descubra que rir é bom
mas que rir de tudo é desespero

Desejo que você tenha a quem amar...

Desejo que você ganhe dinheiro
pois é preciso viver também
e que você diga a ele pelo menos uma vez
quem é mesmo o dono de quem

Desejo que você tenha a quem amar...

segunda-feira, junho 19, 2006

Ninguém faz idéia do que vem lá...

Sentado ao micro,
me fogem as palavras que,
a princípio,
deveria dizer;
e sinto raiva
e dor
e medo
por não saber
o enredo
e não saber de cor.
porque não sinto a menor vontade de escrever um poema e me obrigo, num estoicismo individual, nessa dilacerante briga interna, a me fazer contrário aos meus movimentos. Funciona assim a fuga do eterno, porque ouço o que escrevo; essa é a percepção que tenho. Mas não sigo o que faço, desfaço o que sigo. Sigilo mediante as poucas coisas que entretenho. Tenho medo de novo do novo. E falaram que ia dar errado. Deu. A culpa é sempre minha. Ouço a "Raindrop". Não espero nada mais do dia. Adia a praia amanhã. Manhã triste, não sei o que escrever, mesmo assim, me obrigo...

quinta-feira, junho 15, 2006

Tardezinha no Leblon

É tardezinha no Leblon. As crianças correm e esfarelam cacos de areia arredores; algumas gaivotas se desprendem do azul do céu e desembocam num mergulho raso no oceano, como se ele fosse um imenso quadro de Renoir, onde se pudesse penetrar a qualquer instante; moças e moços caminham pelo calçadão; tu brincas entre as crianças. Enfias fundo a mão na terra e retiras de lá um sonho: tatuís! eles rastejam as patinhas miúdas em teus braços, sobem pelos pelinhos alvos de tua pele morena de sol fazendo cócegas. E tu ris um sorriso branco, de causar inveja a qualquer nuvem estampada no firmamento. És um monstrinho pras criancinhas que pegam no teu pé, finges que vais correr atrás delas, mas sorris tão brandamente que me aproximo bardo; componho estes pequenos aqui, entre minhas mãos, sentado no banco da praia. Admirando. É tardezinha no Leblon.

terça-feira, junho 13, 2006

Inconsciente Coletivo

O algo que me interessa é saber do seu lado bom, que pode também me retirar do lado obscuro em que me encontro. Nós, metidos cada vez mais fundo na história, não sabemos quem somos e dançamos, e beijamos a boca um do outro pro tempo passar mais rápido. Mas não me interessam suas angústias, tampouco as minhas lhe importam; estamos juntos, isto é fato. Olhos fechados, bocas mordidas, entre-enjaulados. Não sou triste como você, mas posso dizer que ainda não me descobri...

segunda-feira, junho 12, 2006

Torpedos MIlionários

O pior da Copa é ver o Faustão em cada intervalo de jogo. E ainda mais pra saber que a globo tá ganhando mó dinheirão com os centavinhos [e até 4 reais] dos torpedos. Imagina só, se forem verdadeiros os dados, por exemplo, os 0,31 centavinhos do BBB que todo mundo tem e que "po, não custa nada ligar", viram 0,31 x 700.000 = 217.000...alguém me ajuda mandando mensagem pra mim?

sábado, junho 10, 2006

Alienista

E no meio de tanta gente estranha, eu percebi que o estranho era eu...

quinta-feira, junho 08, 2006

Perdão

Com o perdão da boa palavra,
venho pedir perdão.
E dizer que nada foi de mim
tão intencional
quanto o fato emocional
de te gostar.
E que nada se passou pela minha cabeça
senão a possibilidade de estar deixando
bem claro tudo o que destruí.
Não fosse difícil pedir desculpas,
por avesso que seja,
fui ainda contra contra mim.
Com o perdão da boa palavra
digo que sumo
porque jamais, meu caro amigo,
jamais, meu caro amor,
quis lhe deixar dessa forma
e como estou,
assim,
entristecido por dentro e por fora
na espera reclusa do teu perdão
no sumisso completo,
a punição que me faço:
ainda que seja longe,
a milhas distantes no espaço...

segunda-feira, junho 05, 2006

Ruptura

E foi naquele momento, com meus sonhos tão pequeninos, que juntos, sentados ao cinema, imaginei quão longe poderia romper eu tais barreiras futuras e nos unirmos. Não passou por isso só meu pensamento, que deslindava, vendo-te, as esmiuçarias que nos aguardavam pela frente. E cavei casas de alvenaria, flores pelo quarto, pés descalços, mãos atadas, dadas ao prazer de estar contigo pelo resto do tempo e, neste afã, afoito em meus próprios devaneios, tornei dada minha mão à tua e no escuro do cinema, houve tua ruptura do pacto: havia enfim negado minha mão e destruído meus sonhos...

sábado, junho 03, 2006

Conhecimento Sólido

- Não te parece que o essencial das coisas está exatamente no que o homem criou sem saber ter criado?
- Como em manifestações primárias...tons, ruídos, expressões artísticas.
- exato. É como se por lá já estivessem as preocupações que nos atordoam até hoje; as eurupções vulcânicas, o capitalismo, o fogo, o vento, a chuva...
- mas sempre o homem soube, por exemplo, das micropartículas que nos rodeiam?
- sempre, creio. Mas inconscientemente. A diferença é que ele não se contenta com o saber intrínseco. O saber inconsciente, embora maior, é sempre o menos visado.
- como se tudo no fundo fizesse parte de um todo.
- plenamente.
- não acredito que as idéias se manifestam no seu tempo. Há muita gente, as idéias são submersas e guardam consigo um material subconsciente...
- mas então, qualquer coisa pode ser uma grande descoberta, não acha?
- e por que não seria? esqueceu que as maiores descobertas um dia foram maiores idiotices ou descrenças? a verdade sempre incomodou...embora ela não exista. talvez porque ela não exista. as pessoas acham que pessoas importantes fazem grandes descobertas, enquanto se esquecem que o homem é um só.
- talvez seja isso que incomode.
- o fato de, mesmo diferente, sermos no fundo todos iguais.

e piscaram entre si, continuando a meditação.